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segunda-feira, 7 de dezembro de 2015

Pequena Prosa 07: O Visigodo

A longa espada adormecida está cravada entre rochas flageladas, ambas leais e valentes nas guerras, tingidas de rubro e fluído viscoso, que antiga e única companheira era-me ela, servindo-me, agora, de repouso cansado.
Havia fogo, corpos, asco e medo por onde tocava a visão. Cansado, abatido, ferido e com as mãos postas em cima do cabo estava eu, um visigodo perdido em meu tempo. Era passado ou presente? Não sei, meus olhos estavam cegos diante de tantos embates, batalhas e combates.
Não suporto, não mais!
Casa?
Onde seria?
Onde estaria?
Não mais lutaria, era vão aplacar em fúria contra os inimigos. Eu viera a me tornar um deles, meu inimigo.
Pelo que lutava?
Não sabia.
Somente sabia sentir o sabor salobro de suor, sangue surgindo do solo. O medo da destruição invadia-me a razão. Farei da sombra meu destino.
Não mais espadas!
Não mais batalhas!
Não mais guerras!
Não mais!
Desistiria de ser eu mesmo e de ser o que outros eram eu.
Na sombra do meu destino e no exílio de minha existência iria viver. Não mais guerreiro, não mais visigodo!
Viveria em paz.

Conseguiria eu viver com a memória daquele cheiro?

terça-feira, 20 de maio de 2014

Mentalidade, Imaginário e a Longa História

O historiador francês, infelizmente recentemente morto, Jacques Le Goff ficou famoso por vários motivos, dois deles em termos metodológicos foram a promoção da história das mentalidades, e sua aproximação com a antropologia, e o conceito de duração histórica, principalmente os fatores de longa de duração. É dele, por exemplo, a análise que a Idade Média teria, de fato, terminado apenas depois da Revolução Francesa, porém ainda com resquícios em pleno século 20.
Em Heróis e maravilhas da Idade Média estão presentes todos esses conceitos, porém de forma reduzida, principalmente por conta que a maioria desses conceitos são explorados em outros livros de Le Goff, principalmente em O imaginário medieval. Então temos em mãos um livro que beira à divulgação científica.
Digo que beira, afinal a linguagem empregada é de rigor acadêmico, e os estudos apresentados, em quase todos os casos, são apresentados de forma minuciosa. É preciso lembrar que em nenhum momento Le Goff expõe seu arcabouço teórico, pelo menos não de forma clara e textual, assim sendo o livro passa a ser um meio termo entre um livro teórico e um livro de divulgação. É um bom texto para os bancos estudantis universitários e para professores se reciclarem.

quarta-feira, 16 de abril de 2014

As Damas do Século XII (Georges Duby)

A historiografia francesa durante o século 20 foi responsável por grandes e importantes mudanças metodológicas para a História. O rol de historiadores que contribuíram para isso é enorme, passando por Marc Bloch e Fernand Braudel, passando por Jacques Le Goff e Georges Duby.
Esse último, dedicou a sua carreira profissional, tanto como professor quanto como pesquisador, a buscar entender o papel das coisas “simples” da vida para a contribuição do processo histórico. Basta lembrar que ele foi o responsável por organizar a coleção História do Cotidiano, lançada no Brasil pela Companhia das Letras.
Duby e Le Goff se debruçaram na Idade Média, muito para tentar derrubar alguns mitos criados pela historiografia romântica do século 19 sobre a formação do estado francês.
Em As Damas do Século XII (Companhia de Bolso), Duby utiliza de fontes documentais e fonte literária para traçar um painel sobre o papel da mulher na vida das cortes flamengas, francesas e inglesas durante o século 11.
O livro, reunião de outros três trabalhos, traz uma abordagem interessante: o quanto o mundo masculino, representado basicamente pelo alto clero católico e pelo poder militar dos senhores feudais, temia e mistificava o mundo feminino. Os exemplos devassados de Eleonor de Aquitânia, de Isolda e de Heloísa são fascinantes.