Ler O Coração das Trevas, para quem gosta da
boa literatura produzida nos últimos dois séculos, é quase que uma obrigação. E
por que digo isso? Simples: sua história permanece mais do que atual, pois
trata, paralelamente, de dois assuntos: o imperialismo europeu na África e da
loucura do poder.
Nessas duas
vertentes, nesses paralelos, ainda há muito frescor no clássico de Conrad, como
a ganância dos países mais ricos perante a riqueza natural de países mais
pobres, aliado a um processo civilizatório por detrás de um discurso econômico,
onde é um “dever” dos mais “civilizados” levaram aos “selvagens” o seu modelo
de civilização, não respeitando as características dos ditos “selvagens”, como
formação e noção de estado, cultura, identificação cultural, entre outras
coisas. Nem levando em conta se o não-civilizado quer se tornar civilizado.
Se olharmos a atual
geopolítica mundial, além da África, sempre ela, onde mais podemos perceber
isso com clareza: no Oriente Médio. O Ocidente tem enormes dificuldades de
entender as instituições, identificações e modelos que ali repousam. Geralmente
fazemos generalizações étnicas (árabes, curdos, turcos) e religiosas
(mulçumanos, judeus e cristãos) para tratarmos do assunto. Mas o caldo cultural
trespassa essas convenções. É um modelo que lhes é único, basta ver a força que
grupo como Hamas, Al-Qaeda e o Estado Islâmico possuem na região. O Ocidente
tende a achar que o mundo todo sofreu as consequências do Iluminismo e da
Revolução Francesa, o que é de uma burrice tremenda.

